7 de junho de 2015

A Vaca-loura

O amor é tudo - excepto o que deveria ser.

Ora, esta frase, presente em várias estâncias da obra literária que hoje vos sugiro, é tudo, e tudo mesmo, aquilo que a história, ou novela, para ser mais correcto, nos dá a conhecer.

A autora portuguesa, Luísa Monteiro, tem inquestionavelmente uma mente brilhante, um poder descritivo elevado e, nesta "A Vaca-loura" em particular, uma pertinência fora do comum na utilização de metáforas e na caracterização animalesca às personagens humanas.
Muito embora seja frequente sermos testemunhos do uso do vernáculo e de cenas um tanto ou quanto macabras, não é nada que, a meu ver, nos faça "revira os olhos", insultar a autora e fechar o livro para nunca mais o abrir, pois comer corações a respingar sangue (...) com uma xícara de mijo espremido das bexigas (pág. 37), para além de mexer com o nosso estômago, o que acarreta consigo um grande poder de influência no íntimo emocional, é algo cómico, tendo em conta que a narradora da história é uma menina de apenas sete anos.

Lurdes, a narradora, relata momentos da sua infância, sempre na companhia da sua irmã, Olga, uma pequena alucinada que, a saltar entre ondas coloridas de tecido querendo apanhar as andorinhas, os morangos, as nuvens, as rosas, os cães, as bolas dos padrões, pendurava-se nos veludos, laçava-se ao cesto de linhas brilhantes de todas as cores e penso que se divertia (pág. 37), e faz-nos projectar uma gargalhada que se interrompe quando nos apercebemos que estamos a ler o livro num jardim público e toda a gente cola o olhar em nós.

Passada nos anos setenta, esta novela frequentemente descreve o modo de vida inerente a essa época, evocando os hábitos familiares, a política que reinava, as regras sociais a que se estava sujeito e o valor que se dava a pequenas coisas, coisas singelas, mas genuínas e naturais, como a natureza ou o amor.

À minha Mãe, que tantas vezes visitava a minha mente enquanto eu lia este livro, aconselho a leitura de "A Vaca-loura", assim como o faço a todos os que viveram os anos setenta ou aos que se interessam pela essência da exiguidade.

     

6 comentários:

  1. Poderei eu dizer neste blog, que existem vacas louras com o cabelo de todas as cores?... ;)

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    1. Meu querido,
      Aqui podes dizer tudo o que quiseres.
      Deixando o "politicamente correcto" à parte, nada mais poderei fazer senão concordar contigo, muito embora essas não vagueiem por aqui, creio...

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  2. Pedro,

    Como já te disse, tens de me emprestar esse livro. Prometo que tu entrego em condições (ou talvez não entregue, depende se gosto dele ou não, ah ah ah!)

    Aproveito, também, para colocar uma dúvida: conseguiste perceber o porquê desse livro se chamar "A Vaca-loura"?

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    1. Sim, neste livro em particular, o título tem uma aplicação bastante óbvia. Note-se que a vaca-loura é uma espécie de escaravelho, que está ilustrado na capa, a qual é particularmente adorada pelas irmãs, Lurdes e Olga. Acabam, mais para o fim da história, por baptizar a sua bicicleta com esse mesmo nome. A importância do veículo a pedal já não a revelarei, caso contrário estragaria o propósito da leitura.

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  3. Caro Pedro, como gostei das suas palavras, espero um dia poder beber uma chávena de chá consigo. Muito grata. LM

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